Sábado à tarde. De bicicleta, Ritinha passa por um botequim, compra cigarros e vai à casa de sua amiga Juliana.
— Olá, dona Rita de Cássia!
— Vá se foder!
— A que devo a honra da visita?
— Ah, eu fui comprar cigarros, aí resolvi dar uma passada aqui. Tem alguma coisa pra beber?
— Com ou sem álcool?
— Primeiro sem, pois estou com sede. Depois com.
Ambas entraram na casa, que possuía uma entrada simples, porém bela, com um caminho sinuoso que levava até à porta, rodeado por flores multicoloridas. Do lado esquerdo do caminho, um banco de praça com um pequeno poste de luz ao lado e uma frondosa árvore de porte médio; ao lado direito, uma grande estátua desgastada pelo tempo de uma galinha carijó usando óculos de aviação, calçando pantufas em formato de ursinho, um colar havaiano no pescoço e segurando um guarda-chuva com o bico.
Ao entrar, cansada pelo longo itinerário percorrido de bicicleta, Ritinha joga-se no tapete ilustrado com uma imagem de Muhammad Ali. Juliana grita da cozinha: “Você quer água, Coca, cerveja ou vinho?”, ao que Ritinha responde: “Eu queria vinho, mas tá muito calor. Traz a água e a cerveja.”

Entra Cotovelo, o gato caolho da raça sphynx de Juliana.
— Miau!
— Oi, feiosinho! – comenta Ritinha, ao pegar e abraçar o gato. Que saudade que eu estava de você.
— Miau.
Juliana traz as bebidas e liga o aparelho de som. Faith no More começa a tocar e logo em seguida Ritinha elogia a escolha da amiga.
— Daqui a pouco vamos dar um pulo no mercado? – pergunta Juliana. Tenho apenas duas latas de cerveja na geladeira e quase nada pra comer.
— Vamos, aí a gente aproveita pra comprar uns petiscos e uns copos dignos pra se tomar cerveja. Copo de requeijão chega a ser heresia!
— Desculpe. É que na última festinha aqui em casa quebraram as últimas três tulipas que restavam.
— É, eu sei. Eu quebrei duas, mas não no mesmo dia.
— Efeitos do álcool... Mas ultimamente você até que tem se comportado bem.
— Você também, Ju. Estou impressionada! Decidiu assumir de vez o papel da dona de casa solteira, independente e responsável?
— Não sou fanática, mas ando me esforçando pra manter as coisas na linha.
— Veremos se esse esforço descomunal se mantém ainda hoje.
— Ué, por quê?!
— Chuchu, hoje é sábado! E como se isso não bastasse, tem festinha na casa da Cris, e as primas delas estão aí.
— Putaqueopariu! Fodeu! E vai todo mundo do pessoal?
— Provavelmente sim – responde Ritinha.
— Amanhã será mais um domingo daqueles...
— Ressaca, dor de cabeça, caganeira e na boca aquele maravilhoso gosto de chorume misturado com pus e diarréia de gatinho doente, daquelas bem moles e amarelas, cheia de vermes, parecendo um prato frio de Miojo.
— É impressionante como a sua criatividade para a escatologia divaga pelos meandros mais obscuros da mente humana. Admiro seu trabalho e sou sua fã.
— Obrigada! Tenho treinado muito.
— Às vezes eu tenho a sensação que estou vendo um filme do John Hughes ao conversar com você – comenta Juliana.
— Verdade?! – pergunta Ritinha com admiração e um certo orgulho.
— Isso te faz feliz?
— Claro! John Hughes é um mestre!!
— Mestre?! Ah, Ritinha, faça-me um favor, né? Ele até que tem uns filminhos legais, mas fez muita porcaria!
— Por exemplo...?
—
Flubber,
Beethoven,
Dennis O Pimentinha,
Esqueceram de Mim,
101 Dálmatas, entre muitos outros lixos.
— É, mas ele apenas fez o roteiro desses filmes. E mesmo assim tem coisas boas, como
A Garota de Rosa Shocking e os três
Férias Frustradas.
— O de Natal é bem meia-sola.

— Não é dos melhores, mas até que dá pro gasto. No entanto, os dois primeiros são clássicos absolutos do verdadeiro humor Sessão da Tarde. Mas isso não vem ao caso. A genialidade dele só se manifesta integralmente quando ele dirige e roteiriza.
Gatinhas e Gatões,
Clube dos Cinco,
Mulher Nota 1000 e
Curtindo a Vida Adoidado são clássicos que marcaram a minha adolescência! Nunca se atreva a falar mal dessas pérolas cinematográficas!
— Nossa, tudo bem! Esses são legais mesmo. Mas ele dirigiu e roteirizou
Antes Só Que Mal Acompanhado e
Ela Vai Ter um Bebê, que não são lá aquelas coisas, além de
Quem Vê Cara Não Vê Coração e
A Malandrinha, que são duas enormes bostas.
— Pra quem não curte muito o cara até que você conhece bem a filmografia dele, hem?
— Eu já fui adolescente e, como toda boa garota com aparelho nos dentes, espinhas na cara e peitinhos crescendo, eu também assistia Sessão da Tarde – argumenta Juliana.
— Tá, mas todo mundo tem direito de cometer suas gafes. Até o Kubrick tem coisas mais ou menos.
— Ah, você está querendo comparar o John Hughes ao Stanley Kubrick?!?
— Não, pois ambos possuem estilos completamente distintos. Só estou querendo fazer jus ao nome deste grande diretor que revolucionou o cinema nos anos 80s. Já te contei a minha teoria sobre ele?
— Ai! Lá vem...
— Meu, seja fria e racional. O John Hughes simplesmente reinventou a maneira de se fazer cinema. Ele criou um novo estilo que foi seguido por gerações e gerações: os teen movies.
Juliana vira os olhos e faz cara de desprezo.
— Não me venha com essa cara de merda! Você sabe muito bem que existem muitos filmes bons nesse gênero.
— Por favor, continue com a sua teoria.
— Então... Nesse gênero, os personagens são caracterizados de forma bastante estereotipada e sempre são divididos por grupos bem definidos: atletas, nerds, patricinhas, rebeldes, esquisitões, entre outros, cada um seguindo suas premissas básicas, com conflitos interiores e exteriores. Os adultos são sempre os vilões e as minorias são sempre vitimadas e se sobressaem no final, como verdadeiros ídolos, como é o caso dos rebeldes. As maiorias, no caso os atletas e as patricinhas, obtêm a redenção no final, demonstrando arrependimento e unindo-se aos seus “inimigos” – Ritinha faz o típico gesto de aspas com os dedos indicador e médio de ambas as mãos –, que são os outros grupos citados. É a hora que um figurante se levanta e começa a bater palmas lentamente e todos os seguem para formar uma ovação desenfreada.
— Certo. Mas até aí você só fez uma análise do padrão dos filmes para adolescentes. Onde fica a sua teoria nisso tudo?
— Calma, Juli! Tenha paciência que chegarei lá, principalmente se eu não for interrompida.
— OK, só que a cerveja acabou e eu gostaria muito de tomar mais umas.
— Então vamos indo ao mercado que eu continuo a história pelo caminho.
Ambas seguem a pé para o mercado, que ficava a poucos quarteirões da casa de Juliana. Ritinha prossegue, empolgada:
— Pois bem. Esse é o padrão dos teen movies tradicionais. Só que John Hughes quebra genialmente com isso. Em
Clube dos Cinco, por exemplo, existem estereótipos, mas não existem grupos, portanto os personagens são obrigados a se inter-relacionarem, e a rivalidade padrão inicial torna-se um diálogo sobre frustrações e anseios de cada um que os leva a uma reflexão e a um entendimento mútuo, mostrando aos jovens que os padrões e os preconceitos não devem ser seguidos. Para nós isso pode parecer bobo hoje, mas quando se é adolescente, muita porcaria pode ser digerida sem ser percebida.
— É, pensando por esse lado...

— E tem mais! Esse conceito é bem antigo. Ocorre, por exemplo, em
O Senhor dos Anéis. Frodo é o herói por acaso e vem de uma minoria, tanto que os cavaleiros de Rohan e os Ents desconheciam a raça dos hobbits. No começo eles são desacreditados, porém tornam-se grandes heróis e adquirem o direito de viver junto com as raças nobres. Todas as raças são estereotipadas e há conflitos entre elas, como o que ocorre entre anões e elfos, humanos e orcs, e por aí vai. Hughes utiliza o mesmo conceito, só que trazendo para a vida real e utilizando menos maniqueísmos. O John Bender, de
Clube dos Cinco, por exemplo, inicialmente é retratado como um desajustado, delinqüente, até mesmo maligno, mas isso se desfaz ao longo da história, já que as amarguras dos personagem são descritas para desfazer seus paradigmas e justificar suas atitudes. Em seguida o mesmo acontece com os outros quatro personagens, que vão pouco a pouco revelando seus mais profundos segredos e, sempre, responsabilizando seus pais, já que são apenas adolescentes e, até então, apenas seguiram diretrizes, sem muito espaço para opinarem a respeito de suas próprias vidas. Tá bem gelada essa cerveja?
— Sim, tá bem gelada – Juliana responde após testar a temperatura com as mãos. Ritão, não é que essa sua teoria é interessante mesmo?

— E o momento da conciliação ocorre de forma politicamente incorreta em se tratando de um filme para adolescentes: com os cinco jovens que estavam de castigo fumando maconha na biblioteca da escola! Todos se divertem, abrem seus corações e ali começa a surgir uma grande empatia entre eles, dando origem, até, a um relacionamento amoroso entre os paradoxos: o rebelde com a patricinha e o atleta com a esquisitona. Percebe a semelhança entre Gimli e Legolas? Só que neste último caso só há o sentimento fraternal, é claro. O nerd fica sozinho para escrever a redação que todos deveriam fazer como parte do castigo, porém ele o faz em nome de todos, resultando em um grande desabafo coletivo, assim como o livro iniciado por Bilbo, continuado por Frodo e concluído por Sam.
— Só que, nesse caso, o livro foi escrito por três pessoas diferentes. Você prefere amendoim japonês ou amendoim normal?
— Japonês. Sim, mas com o mesmo propósito de contar uma aventura e registrar um desabafo sobre um grande acontecimento em suas vidas. O adulto, diretor Vernom, sai como perdedor, já que o sábado que era pra ser um castigo, acaba se tornando divertido e traz boas novidades às vidas dos alunos em questão. Daí em diante, tudo o que vem é mero pastiche de John Hughes, minha cara.
Ambas voltam para a casa de Juliana e começam a preparação para a festa daquele dia bebendo as doze latas de cerveja e comendo os dois sacos de 200 gramas de amendoim japonês que haviam comprado.